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A carteira dentro do celular
veículo: Exame
data:30/11/06
Com a estréia do pagamento móvel, tem
início uma nova era para os bancos, cartões
de crédito e correntistas
O Brasil acaba de entrar num mundo no qual os telefones
celulares se transformam em meios de pagamento, prometendo
deixar na pré-história das finanças
notas e cartões de plástico. No dia 21
de novembro, o HSBC tornou-se o primeiro banco em atividade
no Brasil a converter o celular em dinheiro vivo. Clientes
previamente inscritos puderam ir ao cinema HSBC Belas
Artes, em São Paulo, e ver o bilheteiro clicar
no computador, digitar o preço e o número
do celular e enviar uma mensagem pela internet. Segundos
depois, os usuários receberam uma chamada telefônica
cujo objetivo era confirmar a operação.
Pronto. A entrada para a sessão de cinema estava
paga. Até o final deste ano, os correntistas
do banco poderão fazer o mesmo nas lojas da Livraria
Cultura de todo o país. Desde o final de outubro,
6 000 correntistas cadastrados também podem usar
o celular para pagar despesas em cinco sites de comércio
eletrônico.
A entrada dos grandes bancos no negócio do pagamento
móvel -- nome dado a esse tipo de transação
-- era algo esperado no mercado brasileiro. A única
dúvida era qual deles sairia na frente de um
movimento que, a julgar pelo que já acontece
no resto do mundo, é inexorável. Atualmente,
quatro grandes bancos brasileiros planejam o lançamento
desse tipo de serviço para o próximo ano.
O ABN Amro Real tem dois projetos piloto em andamento.
Desde o começo de novembro, estudantes da Pontifícia
Universidade Católica (PUC) de São Paulo
usam o celular para pagar despesas de lanchonete e de
cópias. As informações são
transmitidas via mensagem de texto, os SMS. O ABN também
vem testando os resultados do sistema com um grupo de
12 taxistas de São Paulo. Eles circulam com um
dispositivo semelhante às máquinas de
cartões de débito e crédito. Ao
final da corrida, em vez de passar o cartão,
o taxista digita o número do celular do passageiro
-- que tem de ser corren tista do banco -- e pede que
ele marque sua senha. O débito em conta é
automaticamente realizado. O Bradesco, maior banco privado
do país, tem hoje 250 000 clientes cadastrados
para fazer a recarga do celular no próprio aparelho.
O serviço começou a ser oferecido no início
deste ano e tem média de 100 000 operações
por mês. A meta para o ano que vem é enviar
contas de telefone fixo e de luz ao celular e permitir
que o cliente do banco autorize o pagamento. Santander
Banespa e Banco do Brasil também devem apresentar
versões de pagamento móvel em breve.
O mercado em expansão
O número de linhas de celular no Brasil cresceu
275% em quatro anos
(em milhões)
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2002 |
35 |
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2003 |
46 |
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2004 |
65,5 |
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2005 |
86 |
| |
2006
(1) |
96,5 |
| |
(1) Até outubro |
|
Fonte: Anatel
O sucesso e a proliferação desse tipo
de sistema representam quase uma reinvenção
de negócios como o das administradoras de cartões
de crédito. E, obviamente, elas já se
movimentam. A Visanet, por exemplo, é parceira
do ABN no projeto dos taxistas. A Redecard, responsável
pelas operações dos cartões de
bandeira Mastercard e Diners, tem um projeto piloto
com as fabricantes de cosméticos Natura e Mary
Kay. Há algumas semanas, 40 vendedoras dessas
marcas acessam um aplicativo da Redecard instalado
no celular e digitam os dados da compra e do cartão
do cliente. As informações vão
para a Redecard e, após a autorização
do banco, as vendedoras recebem o código da
transação. Toda essa movimentação
é uma reprodução, em fase inicial,
do que está acontecendo em várias partes
do mundo. Nos Estados Unidos, a estréia em
grande escala do celular como carteira é esperada
para 2007. Algo parecido vem acontecendo na Europa.
Segundo uma pesquisa recente da Celent, consultoria
americana voltada para o setor bancário, neste
ano o total de pagamentos móveis no mundo será
de 24 bilhões de dólares, a maioria
resultado do comércio de músicas, jogos
e notícias. Hoje, de cada 10 dólares
pagos por celulares, 6 são faturados na Coréia
do Sul ou no Japão. A previsão da Celent
para 2008 é que o total mundial de pagamentos
móveis chegue a 55 bilhões de dólares,
crescimento vindo sobretudo da expansão geográfica
desse tipo de serviço.
O desenvolvimento do uso do celular como meio de pagamento
não tem um caminho único, como mostra
a própria experiência asiática,
de longe a mais adiantada. No Japão e na Coréia
do Sul, os aparelhos de terceira geração
e as velocidades altas de conexão são
o grande motor desse processo. À medida que
o celular se transforma na extensão da internet,
um meio cada vez mais rápido e cada vez mais
usado para compras, aumenta a agilidade das operações
e diminuem os temores so bre segurança. Entre
coreanos e japoneses, cresce também o uso das
tecnologias batizadas de contactless (sem contato
físico). Um chip instalado dentro do celular
permite usá-lo para comprar a passagem do metrô
ou um refrigerante no quiosque. Para efetuar a transação,
basta colocar o aparelho próximo do local determinado.
Não é preciso digitar código
algum. Na Coréia do Sul, já há
meio milhão de estabelecimentos que aceitam
essa forma de pagamento. No Japão, são
20 000. A empresa de telecomunicações
japonesa NTT DoCoMo é o dínamo por trás
das novidades nessa área. No final do ano passado,
foi a primeira do mundo a lançar cartões
de crédito em celulares. Nas Filipinas, o perfil
dos usuários e a infra-estrutura do setor de
telecomunicações são, obviamente,
bem diferentes. Isso, porém, não impediu
que o mercado local desenvolvesse uma das experiências
mais avançadas entre os países em desenvolvimento.
Lá, os donos de celulares compram créditos
que podem ser transferidos de um aparelho para outro
com o uso de SMS. Esse sistema permite que um cliente
pague as despesas ao enviar o registro de um crédito
para o celular do dono da loja.
Apesar de questões de custo e segurança
que precisam ser ajustadas de acordo com características
locais, restam poucas dúvidas de que usar um
aparelho com a capilaridade do celular como meio de
pagamento faz todo o sentido. Em outubro, o número
de celulares no Brasil chegou a 96 milhões
-- crescimento de 275% desde 2002. Em todo o mundo,
já são 2 bilhões de aparelhos
em operação, o equivalente a um terço
da humanidade e mais do que todos os usuários
de computadores juntos. Ninguém em sã
consciência, no entanto, prevê que o celular
enterrará o dinheiro vivo e os cartões
de crédito convencionais. Pelo menos não
no curto prazo.
Do ponto de vista dos usuários, a iniciativa
é sinônimo de comodidade, de conforto.
Para as empresas de telecomunicações,
também é um bom negócio, uma
espécie de caminho natural. Nos anos 90, os
celulares eram apenas um instrumento grande e pesado
para conversar. Hoje, menores e leves, têm uma
longa lista de funções. Sem contar o
aumento de receita decorrente das ligações
e dos SMS, o pagamento móvel transforma o celular
em peça ainda mais imprescindível no
dia-a-dia.
Nessa fase de desbravamento, os bancos brasileiros
investem com um olho no futuro e outro na imagem de
modernidade que essas iniciativas irradiam. Mas, para
que o celular se firme como um instrumento financeiro
viável e de massa, será necessário
encontrar uma fórmula competitiva em relação
aos canais existentes. Em média, uma operação
bancária feita no caixa da agência custa
3 reais. Numa máquina ATM, cai para 70 centavos
e, no site do banco, fica em torno de 10 centavos.
"O pagamento móvel é uma forma
interessante, mas é preciso examinar a viabilidade
financeira de cada projeto", diz Rodrigo Motta
Mendes, diretor da área financeira da consultoria
AT Kearney, para quem os cartões de crédito
terão um papel crucial. Não faz sentido,
diz Mendes, os bancos cadastrarem individualmente
todos os lojistas do país porque a Redecard
e a Visanet já trilharam esse caminho. "É
óbvio que o celular terá seu espaço,
mas por enquanto está em processo de maturação",
diz José Tosi, gerente-geral da Mastercard
no Brasil.
Como demonstra o exemplo da África do Sul,
os celulares têm potencial para popularizar
outra modalidade, a dos bancos móveis. Os clientes
do Wizzit, que tem como lema "Um banco no seu
bolso", são, em geral, pessoas de baixa
renda, gente que se sente pouco à vontade em
uma agência bancária, mas possui um celular.
É por meio dele que fazem transferências
bancárias e compram créditos em empresas
de energia elétrica. Com o uso de cartões
em máquinas ATM, retiram dinheiro e pagam contas.
Uma pesquisa realizada pelas Nações
Unidas e pela Fundação Grupo Vodafone,
entre julho e agosto, com 215 pessoas concluiu que
os clientes do Wizzit sentem falta de contato com
pessoas nas ligações para o banco, mas
acreditam que o sistema móvel seja mais em
conta.
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